Hera Simões

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Brincadeira de Criança

Aviso: esse conto é NSFW.

— Bárbara? — ouviu a voz masculina antes de se virar.

Não demorou a reconhecê-lo: alto, cabelo bagunçado, barba eternamente rala. Um rosto de detetive de noir, de fumante de cigarro, de amante de várias mulheres mas homem de nenhuma. Silvério. Havia sido professor seu de História na época do ensino médio. Lembrava-se bem dele; e, apesar dos quase dez anos desde a época, não havia mudado quase nada. Talvez tivesse uns cabelinhos brancos a mais na barba, o cabelo estava começando a ser perdido. Mas continuava o mesmo bonitão.

— Caramba! Professor? — Bárbara se levanta da mesa. Não sabe direito como cumprimentá-lo, mas já que ele se aproxima, dá um beijinho na bochecha. Sente o roçar de sua barba ralada contra a pele antes de se distanciar. Sua calcinha dá uma leve roçada, também, mas ela ignora a sensação.

Na época, tinha uma certa paixonite pelo professor. Era até motivo de piada entre os amigos. Não esperava revê-lo, nem que a paixonite continuasse hoje em dia. Inclusive, não esperava que ele ainda se lembrasse dela.

— Te vi de dentro do restaurante — ele sorri. — Fiquei olhando, tentando lembrar de onde conhecia essa garota... Até me tocar! Aquela fera em História!

— Ah, que isso...

— Você só tirava 10. Eu nunca me esqueço de uma aluna CDF. — De início, ela não sabe como reagir mas, vendo a risada do antigo professor, ri também.

Logo estão sentados juntos tomando um café. Na época, nunca teria se visto tomando café; agora não vivia sem cafeína.

Não estava esperando que sua paixonite ainda existisse. Ele nem era tão bonito assim. Mas tinha uma certa aura, um jeito de bonitão. Seus amigos brincavam que ele devia ser bom de cama, que, depois do ato, acendia um cigarro - não: um charuto - e perguntava à mulher "foi bom para você?". Agora Bárbara se perguntava se isso realmente era verdade. Já havia reparado que não havia anel nenhum no seu dedo. Não se lembrava se ele tinha anel na época da escola; talvez tivesse. Um de seus amigos sempre dizia que ele tinha cara que tinha várias amantes por aí. Bárbara até brincava que usava saia de propósito nos dias em que tinha aula com ele, sempre se sentava na frente.

Claro que era tudo besteira. Brincadeira de criança. Nem havia beijado ainda quando falava esse tipo de coisa. E nunca achou que o professor reparasse nela. Nem saberia o que fazer se ele reparasse.

Mesmo assim, Bárbara não conseguia evitar o pensamento de que estava usando saia naquele instante, também. E que Silvério estava próximo o suficiente para que seus joelhos roçassem um no outro de vez em quando. Ele não se aproximava, mas também não se afastava. Toda vez que sentia a pele dele na sua, sabia que ficava um pouco vermelha.

Não acreditava nisso. Que bobagem.

— Faz sentido que você seja advogada agora — ele diz. — Sempre foi dedicada. Sabia que você ia longe.

Ela dá um sorriso embaraçado.

— Pena que não foi atrás de carreira como historiadora — continua, meio brincando.

— Você continua dando aula?

— Não sou tão velho assim para ter me aposentado!

Bárbara ri, ainda envergonhada. É verdade. Deveria ter uns 50 agora? Talvez menos.

— Nós temos uma diferença grande de idade, não é? — Silvério diz, como se lesse os pensamentos dela. — Você deve me achar um tiozão.

— Não! Quer dizer, você tinha umas piadas de tiozão naquela época — os dois riem. — Mas não te acho velho.

— Mas eu sou. Tudo bem, não poderia ser seu pai... Talvez um tio.

— Um tio muito bem conservado.

Silvério abana a mão, fingindo recato.

— Solteirão — admite, olhando de canto para ela.

— Ah, é?

— Nunca me interessei pelo casamento. Fiquei para titio. — Espera um pouco, assistindo a reação de Bárbara. — E você?

— Acho que vou ficar para titia também — ela se surpreende com a própria admissão.

— Imagina!

— Não me vejo casando — dá de ombros. — Eu já reparava mesmo naquela época que você não tinha anel nenhum. Quer dizer, a gente reparava. — Não sabe direito porque inventa.

— A gente?

— Meus amigos.

— Ah, sim — ele dá um sorrisinho. — Então nem um namoradinho?

— Já estou velha demais para ter namoradinhos. Mas não.

— Casada com o emprego?

— É difícil não ser.

— Isso eu entendo bem! — Silvério solta uma risada meio desesperada. — Depois de sair daqui, tenho 30 provas para dar nota. Ai, Jesus. Talvez eu até já devesse ir — ele diz, sem se mexer.

Seus olhos continuam nos de Bárbara. Os seus joelhos estão roçando novamente. É proposital, ela pensa. Sente-se ficar vermelha. Sabe que ele consegue vê-lo. Engole em seco, tenta olhar para outro lugar, volta para Silvério. Nunca foi boa em interpretar as ações dos outros. Parte dela está nervosa, quer estar errada. Mas sabe que não está.

Havia imaginado esse momento antes; um reencontro com o professor gostoso do passado. Lia livros assim, gostava desse fetiche. Só nunca achou que aconteceria de verdade.

Pouco tempo depois, estão no banheiro do restaurante. Silvério não beija tão bem quanto ela esperava; mas talvez suas expectativas fossem altas. Ainda assim, gosta de sentir sua barbinha contra sua pele. E gosta que ele a agarra com força. Tem pegada, diria uma amiga sua. Bárbara deixa que ele a guie; não tem experiência suficiente para guiar, fica nervosa até hoje com esse tipo de coisa. Ele beija seu pescoço, pega na sua bunda, agarra seu cabelo.

Ela demora a entender o movimento. A puxação. É só na terceira vez que percebe o que ele quer. Ele não está a puxando; está a empurrando.

— Olha como eu já estou duro — ele diz no seu ouvido, levando sua mão entre suas pernas. Ela não sabe dizer se ele realmente está ou não, mas entendo o recado.

Fica de joelhos. Gosta do olhar dele, meio fascinado, meio excitado, percebe que ele está pensando no quão errado isso é. Ela gosta disso. E gosta que ele agarra seu cabelo.

Quando começa a chupar o pau de Silvério, pensa nas aulas que teve com ele. Nas brincadeiras com a saia. Em como gostava de ver seus braços meio musculosos quando ele anotava na lousa. Nas suas tatuagens.

Não sabe se está fazendo direito, mas Silvério parece estar gostando. Continua com a mão firme no seu cabelo.

— Porra... — ele sussurra, seus olhos cerrados.

Pensa de novo na saia. Será que ele reparava? Será que ele sabia?

— Continua... Você sempre foi tão gostosa...

Bárbara volta àquela sala de aula. Sempre achou que fosse uma aluna qualquer para o professor. Nunca sentiu seu olhar no dela. Nunca nem haviam conversado direito. Ele só está falando no clima do momento? Sentia algo na época, também? Encarava suas perninhas de fora? As blusas levemente decotadas que ela usava de propósito? O jeito que ela ficava envergonhada quando trocavam olhares no meio da aula?

Ela tinha 14 anos. Ele reparava nela quando ela tinha 14 anos?

Silvério goza. Bárbara não sabe o que fazer, engole um pouco, o resto cospe. Tenta se limpar com a mão, mas ele pega um papel. Não a ajuda a se limpar, mas lhe dá na mão.

Ela continua ajoelhada, apesar de Silvério já ter se ajustado, sua calça já fechada. Continua naquela sala de aula. Sentia-se estranha agora. Suja. Como se tivesse 14 anos novamente.

Nota da Autora:

Baseado numa paixonite real que tive em um professor de História lá no Ensino Médio. Mas tenho certeza que ele não se lembraria de mim hoje em dia. (Minha turma tinha mais de 30 alunos e sempre fui quietinha). Foi escrito há um tempão, mas terminei Half His Age recentemente e me lembrei desse conto parado no computador.

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